Arquitetura da Fuseta

Património Cultural Material

Entre a casa, a ria e o mar

A arquitetura da Fuseta é inseparável da história da sua comunidade e do território onde se desenvolveu.

Telhado de telha de uma igreja, com cruz de ferro no cume, sobre o casario branco da Fuseta e a ria no horizonte.

Entre a terra e a água, a vila foi crescendo ligada à pesca, à ria, ao mar e às atividades que deles dependiam. As suas casas, ruas, açoteias, cais e outras construções tradicionais testemunham uma forma de ocupar o território profundamente adaptada ao modo de vida local.

Mais do que um conjunto de edifícios antigos, a arquitetura tradicional da Fuseta constitui um património que permite compreender como uma comunidade construiu o seu lugar e nele organizou a sua vida.

Das primeiras cabanas às casas de alvenaria

A investigação sobre a evolução urbana e arquitetónica da Fuseta identifica raízes antigas na formação do núcleo urbano, remontando a sua estrutura histórica ao século XVI.

Os primeiros assentamentos sazonais de pescadores remontam, segundo a investigação histórica e arquitetónica disponível, ao século XVI. A comunidade ligada à pesca, nomeadamente à atividade das armações de atum, instalava-se em cabanas de colmo, junto da foz da Ribeira do Tronco e em frente à barra.

Fotografia antiga a preto e branco de uma cabana de colmo na areia, com roupa estendida junto à porta e uma vedação de canas.

Apesar do caráter inicialmente precário e sazonal destes assentamentos, a implantação das cabanas não parece ter sido inteiramente aleatória. Desde cedo terão sido seguidas regras de organização do espaço que contribuíram para a formação de um traçado regular e ortogonal, posteriormente desenvolvido à medida que a população se fixou e a povoação cresceu.

Durante o século XIX e a primeira metade do século XX, a Fuseta conheceu uma importante transformação da sua arquitetura doméstica. As antigas construções foram progressivamente substituídas ou ampliadas, dando origem a um conjunto de casas onde se desenvolveram soluções construtivas particularmente características.

A arquitetura que hoje reconhecemos no núcleo antigo da Fuseta é, assim, o resultado de um processo gradual de transformação, no qual se cruzaram necessidades práticas, conhecimentos construtivos, materiais disponíveis e adaptação às condições locais.

A Igreja Matriz como lugar de transmissão de saberes

Uma das questões mais interessantes associadas à arquitetura tradicional da Fuseta relaciona-se com a construção da Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo.

A construção do templo, entre o final do século XVIII e a primeira metade do século XIX, terá proporcionado à população local o contacto com técnicas construtivas mais elaboradas. Os pescadores poderão ter participado nos trabalhos da obra, nomeadamente no transporte e preparação dos materiais, convivendo com os mestres responsáveis pela sua execução.

Segundo a investigação de Mafalda Batista Pacheco, este contexto poderá ter favorecido a transmissão de conhecimentos entre a construção erudita e a arquitetura local. Técnicas utilizadas na construção da igreja terão podido ser observadas e posteriormente adaptadas pelos construtores da comunidade piscatória, contribuindo para a evolução das habitações tradicionais da Fuseta.

Neste âmbito, coloca-se também a hipótese de alguns conhecimentos relacionados com a construção de abóbadas terem sido adquiridos ou desenvolvidos localmente a partir da observação das técnicas empregues na Igreja Matriz de Nossa Senhora do Carmo.

Esta interpretação ajuda a compreender a forma como determinados saberes construtivos poderão ter circulado entre edifícios de diferentes naturezas, passando de uma obra de caráter religioso e erudito para a arquitetura corrente da comunidade.

Importa, contudo, sublinhar que esta relação deve ser entendida como uma interpretação sustentada pela investigação arquitetónica, e não como um facto histórico documentalmente comprovado em todos os seus pormenores.

É neste cruzamento entre conhecimento, experiência e adaptação que ganha particular significado uma das ideias mais sugestivas para compreender a arquitetura tradicional da Fuseta: uma arquitetura sofisticada, construída por pessoas comuns e para pessoas comuns, sem a intervenção de arquitetos.

Referência: Mafalda Batista Pacheco, «Fuzeta: um núcleo urbano piscatório singular» e «A evolução urbana e arquitectónica da Fuseta».

Um traçado urbano singular

A própria organização da vila constitui um elemento importante do seu património.

A estrutura urbana histórica apresenta uma organização relativamente regular, com ruas e quarteirões que refletem uma ocupação planeada do espaço.

Essa regularidade contrasta, em muitos aspetos, com a imagem que habitualmente associamos a povoações piscatórias desenvolvidas de forma inteiramente espontânea.

Fotografia aérea antiga a preto e branco do casario da Fuseta, com ruas ortogonais, quarteirões regulares e açoteias.

A forma urbana é, por isso, parte integrante da identidade arquitetónica da Fuseta. Não são apenas as casas que importa preservar: também as ruas, os alinhamentos, os espaços de relação e a escala do conjunto contribuem para a leitura histórica da vila.

Uma arquitetura feita para viver

As casas tradicionais da Fuseta foram construídas, antes de mais, para responder às necessidades concretas das famílias que nelas viviam.

A sua arquitetura resulta de uma combinação entre funcionalidade, economia de meios e conhecimento construtivo.

As soluções encontradas permitiam tirar partido dos materiais disponíveis e das condições climáticas locais, criando interiores frescos e espaços exteriores úteis ao quotidiano.

É neste contexto que assumem particular importância as abóbadas, as açoteias e os diferentes tipos de cobertura que caracterizam muitas das construções tradicionais.

As casas abobadadas

A característica mais singular da arquitetura tradicional da Fuseta encontra-se, talvez, no interior das próprias casas.

Por baixo de muitas das açoteias escondem-se abóbadas de tijolo, que substituíram as soluções tradicionais de cobertura em madeira e permitiram criar terraços planos, simultaneamente resistentes e úteis para a vida quotidiana.

Na Fuseta encontram-se diferentes soluções de abóbada, entre as quais se destacam as abóbadas de berço, de berço abatido, de vela e, em menor número, de barrete de clérigo. A investigação realizada no núcleo histórico identificou uma relação estreita entre estas soluções construtivas e a organização dos espaços interiores das habitações.

Mosaico de sete fotografias de abóbadas de tijolo vistas de baixo, umas em berço e outras com fiadas em retângulos concêntricos.
Duas fotografias de abóbadas de tijolo vistas de baixo, com as fiadas a convergir em arestas diagonais que se cruzam.

A sua construção exigia conhecimento, precisão e domínio da geometria. Longe de serem estruturas improvisadas, estas abóbadas obedeciam a princípios construtivos transmitidos entre gerações de pedreiros.

Um dos aspetos particularmente notáveis é o facto de algumas destas soluções poderem ser construídas sem recurso a complexas cofragens de madeira, sendo os tijolos progressivamente dispostos e apoiados uns nos outros durante a execução.

O berbigão: um material da Ria dentro das casas

Há ainda uma particularidade que revela, de forma extraordinária, a capacidade de adaptação dos antigos construtores aos recursos disponíveis no território.

Na construção das coberturas, cascas de berbigão eram utilizadas no enchimento sobre a abóbada, particularmente nas zonas necessárias para regularizar a superfície e preparar a construção da açoteia.

A utilização deste material estava relacionada com a sua disponibilidade local e com a sua leveza. As cavidades existentes no interior das conchas contribuíam para criar bolsas de ar, favorecendo também o comportamento térmico da cobertura.

É um exemplo expressivo da forma como a arquitetura tradicional aproveitava os materiais existentes na paisagem e os integrava em soluções construtivas engenhosas.

A açoteia: um espaço de trabalho e de vida

Sobre as abóbadas surgem as açoteias, uma das imagens mais características da paisagem urbana da Fuseta.

Mais do que simples coberturas, as açoteias constituíam verdadeiros espaços de trabalho. Nelas se podiam estender e reparar as redes, secar o peixe e outros produtos e realizar diversas tarefas relacionadas com a vida doméstica e a atividade piscatória.

Açoteia pavimentada a tijolo com a curva de uma abóbada a emergir do terraço, entre muretes brancos e uma casa ao fundo.
Figos a secar sobre redes verdes numa açoteia de muros brancos.
Peixe a secar pendurado em arames sobre uma açoteia branca, com casas brancas ao fundo.

A cobertura plana permitia ainda aproveitar de forma particularmente eficiente os lotes estreitos e profundos que caracterizam muitas das casas tradicionais.

Assim, a arquitetura não era apenas uma resposta às condições climáticas ou aos materiais disponíveis: era também uma resposta direta ao modo de vida de uma comunidade profundamente ligada ao mar.

Mas a açoteia possui também uma dimensão paisagística.

A partir dela, a casa abre-se ao céu, à vila, à ria e ao horizonte.

É essa capacidade de estabelecer uma relação visual com o exterior que aproxima, conceptualmente, a açoteia de outro elemento característico da arquitetura local: o mirante.

O mirante: olhar para o mar

O mirante constitui uma das expressões mais interessantes da relação entre a arquitetura tradicional da Fuseta e a paisagem que a envolve.

Associado a determinadas habitações, permitia elevar o ponto de observação sobre a vila, a ria e o território envolvente. Mais do que um elemento arquitetónico, o mirante podia assumir uma função ligada ao quotidiano de uma comunidade profundamente dependente do mar.

Na Fuseta piscatória, olhar o mar era também uma forma de acompanhar a vida: observar o estado do tempo, acompanhar a atividade marítima e procurar, no horizonte, o regresso das embarcações. O ato de olhar fazia, assim, parte da experiência quotidiana da comunidade e ajudava a estabelecer uma relação particular entre a casa, a vila e a paisagem lagunar.

Esta dimensão do mirante é valorizada por Pedro Miguel Mascarenhas de Brito na sua dissertação de mestrado, Vila da Fuzeta, entre o mar e a terra. Revelar arquiteturas, percursos e horizontes lagunares, apresentada em 2019 na Universidade de Évora. O seu trabalho evidencia a importância dos percursos, dos pontos de observação e dos horizontes lagunares na compreensão da relação entre a arquitetura da Fuseta e o território.

O mirante pode, assim, ser entendido não apenas como um elemento da arquitetura das casas, mas também como um lugar a partir do qual se estabelecia uma relação quotidiana com o mar e com a paisagem.

Referência: Pedro Miguel Mascarenhas de Brito, «Vila da Fuzeta, entre o mar e a terra. Revelar arquiteturas, percursos e horizontes lagunares», dissertação de mestrado em Arquitetura, Universidade de Évora, 2019.

O telhado de tesouro

Ao lado das açoteias, outro elemento caracteriza a arquitetura tradicional da Fuseta: o telhado de tesouro.

Trata-se de uma cobertura de quatro águas, de inclinação relativamente reduzida, que aparece sobretudo associado a determinados compartimentos e, em particular, às zonas frontais de algumas habitações.

Telhado de tesouro de quatro águas, em telha de canudo, visto de uma açoteia, com fios, antenas e casas vizinhas ao fundo.
Estrutura de madeira de um telhado de quatro águas vista do interior, com vigas que convergem no centro.

A combinação entre telhados de tesouro e açoteias confere ao casario uma diversidade formal que, apesar de discreta, pode ser observada por quem percorre atentamente as ruas antigas da vila.

Esta conjugação de soluções constitui uma das características estudadas na investigação arquitetónica sobre a Fuseta e contribui para a identidade própria do seu núcleo histórico.

Uma arquitetura de grande coerência

A singularidade da Fuseta não resulta apenas de cada casa individualmente considerada.

Resulta também da relação entre as casas, os lotes, as ruas e o conjunto urbano.

A repetição de determinadas soluções arquitetónicas e construtivas, aliada à regularidade do traçado, criou uma paisagem urbana particularmente coerente. Muitas das casas desenvolvem-se em profundidade, acompanhando a forma estreita dos lotes, enquanto as coberturas e os espaços interiores se adaptam às necessidades das famílias que nelas viviam.

Essa repetição não significa uniformidade absoluta. Pelo contrário: pequenas diferenças na dimensão, na organização interior, nas coberturas, nas fachadas ou nas chaminés conferem personalidade a cada edifício.

É precisamente nessa combinação entre unidade e diversidade que reside parte da riqueza do património arquitetónico da Fuseta.

As chaminés e a identidade das casas

As chaminés tradicionais constituem outro dos elementos que contribuem para a imagem característica do casario algarvio.

Fotografia antiga a preto e branco de casas brancas de açoteia, com muretes e pequenas chaminés, vistas de um ponto alto.
Fotografia antiga a preto e branco de açoteias brancas com uma chaminé rendilhada, um telhado de telha e a ria no horizonte.
Fotografia antiga a preto e branco de telhados de telha e de uma chaminé com aberturas no remate, com o casario ao fundo.

Na Fuseta, algumas apresentam formas elaboradas e trabalhos de alvenaria que revelam o cuidado colocado na sua execução. Elevando-se acima das açoteias, introduzem uma dimensão vertical numa paisagem predominantemente marcada pelas linhas horizontais dos terraços e dos telhados.

Tal como as próprias casas, também as chaminés testemunham a capacidade dos mestres pedreiros locais para transformar necessidades funcionais em elementos de expressão arquitetónica.

Um património ainda vivo

Durante muito tempo, muitas destas características permaneceram praticamente invisíveis.

As abóbadas encontravam-se caiadas, integradas no interior das habitações, e a sua presença era sobretudo conhecida pelos habitantes. Foi com a realização de obras de recuperação e com o interesse crescente de investigadores e arquitetos que a verdadeira dimensão deste património começou a ser mais amplamente reconhecida.

A investigação de Mafalda Pacheco e o episódio do programa Visita Guiada, emitido pela RTP em 2019, contribuíram para dar a conhecer a singularidade destas casas a um público muito mais vasto. A investigadora identifica cerca de 750 coberturas abobadadas no núcleo histórico e considera excecional a concentração, a complexidade construtiva e o caráter popular deste conjunto.

Hoje, estas casas constituem um património que importa conhecer, preservar e transmitir às gerações futuras.

O Bairro dos Pescadores

A história da arquitetura da Fuseta não termina nas casas tradicionais do núcleo antigo.

Já no século XX, a construção do Bairro dos Pescadores introduziu uma nova etapa na história da habitação ligada à comunidade piscatória. O conjunto, associado ao arquiteto Inácio Peres Fernandes, foi concebido como habitação destinada a pescadores e incorporou elementos que dialogam claramente com a identidade arquitetónica local.

Fotografia antiga a preto e branco do Bairro dos Pescadores, com edifícios brancos junto à linha do comboio e a ria ao fundo.
Fotografia antiga a preto e branco de casas brancas do Bairro dos Pescadores, com escadas em arco, sob céu nublado.
Casas brancas de piso térreo com soco e degraus vermelhos, escadas em arco para a açoteia e passeio em calçada, sob céu azul.

As suas casas, os espaços exteriores e a organização do conjunto mostram como alguns dos elementos característicos da arquitetura algarvia continuaram a ser reinterpretados numa época em que a habitação dos pescadores passou a ser objeto de planeamento e intervenção arquitetónica.

É, por isso, uma importante peça na continuidade da história urbana da Fuseta.

Descobrir a Fuseta através da sua arquitetura

A melhor maneira de compreender esta arquitetura é percorrer lentamente as ruas da vila.

Olhar para as fachadas, reparar na largura dos lotes, observar os telhados de tesouro, procurar as chaminés acima das açoteias e imaginar os espaços de trabalho que outrora se desenvolviam nos terraços permite perceber que o património da Fuseta não está concentrado num único monumento.

Está na própria vila.

Está no desenho das ruas, na repetição das casas, nas abóbadas escondidas por detrás das superfícies caiadas, nas açoteias abertas ao céu e nos pequenos pormenores que testemunham a vida de sucessivas gerações.

A arquitetura tradicional da Fuseta é, em última análise, a expressão construída de uma comunidade que soube transformar conhecimento, necessidade e recursos locais numa paisagem urbana singular.

Uma arquitetura feita pelos pescadores.

Uma arquitetura feita para a sua vida.

Uma arquitetura que hoje pertence à memória e à identidade de toda a Fuseta.