Histórias da minha gente
Memória, identidade e linguagem de uma comunidade
Há nomes que ficam escritos nos documentos. Outros ficam escritos na memória das pessoas.
Durante gerações, na Fuzeta, como em tantas comunidades onde as relações de vizinhança e de família se construíam numa proximidade quotidiana, muitas pessoas eram conhecidas não apenas pelo nome que constava dos registos, mas também por um apelido ou por uma alcunha.
Eram nomes que nasciam da vida, da convivência e da forma particular como cada pessoa era reconhecida pelos outros.
Uma alcunha podia estar ligada a uma profissão, a uma característica física ou de personalidade, a um hábito, a uma relação familiar ou a um episódio da vida. Algumas eram transmitidas dentro das famílias e outras passavam de geração em geração, tornando-se referências que permitiam reconhecer não apenas uma pessoa, mas também a família a que pertencia.
Mais do que simples nomes, estes apelidos e alcunhas guardam fragmentos da história de uma comunidade. Por detrás de cada um pode existir uma pessoa, uma família, um ofício, uma história ou uma lembrança.
Juntos, constituem uma forma singular de preservar a memória de uma terra e das suas gentes.
Foi precisamente essa memória que Maria José Viegas da Conceição Fraqueza, fuzetense, nascida a 8 de maio de 1936, professora, escritora e poetisa, procurou preservar na sua obra dedicada às histórias, às personagens e às vivências da Fuzeta.
Em setembro de 1990, Maria José Fraqueza reuniu, sob o expressivo título Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, um conjunto de nomes e memórias que testemunham uma forma de identificação profundamente enraizada na vida da comunidade fuzetense.
O presente documento, elaborado a partir de um extrato dessa obra, pretende dar a conhecer e preservar este património de memória, aproximando as gerações atuais de pessoas, famílias e histórias que fazem parte da identidade da Fuzeta.
Não se trata apenas de recordar nomes antigos.
Trata-se de reconhecer, através deles, uma parte da história da comunidade: as pessoas que a construíram, as famílias que lhe deram continuidade, as profissões e modos de vida que a marcaram e as relações que, ao longo do tempo, deram forma à própria comunidade.
Porque uma alcunha pode ser apenas uma palavra para quem não conhece a sua história.
Para quem conhece a Fuzeta, pode ser o nome de uma pessoa, de uma família e de uma memória.
E é essa “Histórias da minha gente”, evocada por Maria José Fraqueza, que importa preservar e transmitir às gerações futuras.
EXTRATO DA OBRA
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente (páginas 46 a 57)
Maria José Fraqueza
Setembro de 1990

Começo na minha rua…
Junto à casa do Pernita,
Uma enorme multidão...
Lembro uma criança aflita,
Nos prédios de «balalustres»
Um «môce» pequeno aos «sustes»
Que pregou à sua mãezinha…
Passa o «Enfante» e a Rainha…
Lá ao fundo... a recordacão!...
Atrás do cortejo, lá vão…
A Tétinha, a Nétinha, a Orelhinha
O Barreguinha, a vizinha Vicentinha
O genro — o Farrobinha,
Tanta Farrôba na Fuzeta...
O Ti Tóino Dança «s’ajêta»
A «enfarrobar» as linhas...
Ena! Tantas criancinhas!
E ele... no seu «estrabuche»
Vinha o amigo «Zé Buche»,
Gritava a «Mari Cachopa»:
— D‘onde vem o Pouca Roupa?
— Virá benzer o «afite»?
Um «rai» dum «môce» solta um «grite»,
Dos «borrifes» d‘aguardente
Lá se ouvia o «Chora-chora»
O Ramela foi-se embora...
E chegava o Pouca Pressa, o Pará-pá-pum
Que não tinha nada que fazer
E também se queria benzer
E ainda vinha em «jum»?...
— Diga lá do que é que se queixa?
Pergunta a cunhada Ameixa:
— É o Bago d'Uva ou o Figo Lampo?
— Ou vem benzer o sarampo?
É a comadre Maria Aflita?
De soltura a padecer?
Se fosse o Figo de Pita...
Só prisão podia ter!
Vão todos para o doutor
Há muita gente com dor,
Há muita gente queixosa...
A Maria Cor de Rosa?
A Bexigosa e a Perigosa?
O «Mane Barafusta» se assusta...
«O “Dator" vive à nossa custa...»
Vem o Zé Fadairo, o Apaga-a-Luz
O Caralhinho Aflito, ai Jesus!
O João Marreco, o Tranca na Porta
O Parte Portas e o Pechinha Torta
O Samirro e o Parte Cornos
O Buraco Louro com os seus adornos
A Ferrugenta, a Pingenta, a Ti Benta
O Camegim, Dezóito e Mari do Forno
O Pincel, Boquinha à Banda e Picha-Mel
Ah! Como este mundo é cruel!
Vem o Zé Ruel, o Zé Martelo e o Lintel,
A Menina Virgem no «Breguel»?
Vem o Braço de Trabalho,
Os Cuícas, Calhandra e Bandálho
O Calmice e o Terrice
O Xónim, o Rólim e o Jólim
Este mundo é mesmo assim!
Vem o Déque-Déque e o Pé-de-Léque
O Huite-Huite e o Samorrinho
O Ti Sebastianito, o Tabim e Chumbinho
O Ti Jarólme e o Calcanhar
Até parece um festim!
Ou é o peixe a saltar?
E ninguém faça «chinfrim»
Que o «Peixinho» cai ao mar!...
Quando havia baile mandado
Lá ia tudo acasalado...
A Maria Montanheira, a Sapateira
A Maria Brasileira, a Fareira
A Moleira, a Romeira
A Canastreira, o Cabeleira
O Carrasqueira e a Canhoeira
A Boleira, a Canteira, a Sexta-Feira
A Toupeira, a Ameijoeira
As Funis e Miss Cafeteira
As Gemas e a Cabreira
E dançavam o corridinho
E lá ía o Zé Povinho
O Pé-Leve, o Caga-Milhões
Ninguém andava aos trambolhões
Manel da Burra e Bumbas
Talaças, a Pata-Descalça
Dançavam tangos e valsas
«Chicótes» e rumbas
O Tó Bufa, a Pedôna e o Parra
O Rabicha, a Piorra
E quem é que os agarra?
Por mais que corra?
Pela manhã radiosa
Quando a vida se renova
Lá iam à Arte-Nova...
De cântaro d’água, a Graciosa
Buscar a água do Poço
Desde o mais velho ao mais moço,
Lá iam todos os dias...
A Penica, as Claras, as Bias
A Mari Pequenina, a Mari Estina
A Paloia, a Paneláca
A Saca e a Casaca
O Medonha, o Caté e o Reboludo
O Sapato d'Ourelo, o Beiçudo
Passeavam pelas vinhas...
O Lacrau, Calhuco e Róba Galinhas
O Fava e o Canas,
O Tagana e a Pailona
O Cutito e a Gorpelha
A Pateta e a Macaca Velha
O Bruto e o Cuma
E não escapava nenhuma
Não haviam «broncas»...
Vinha o «Faz-que-Roncas»
O Enquanto-Vida e as Palancas
O Chico das Luvas, o Zé Bandulho
Um grande barulho...
Lá vinha o «Vernheiro»
O Blé Montanheiro, o Zé Guerreiro
O Zé Braseleiro, o Cachimbeiro
O Ti Zé Moleiro, o Zé-na-Tem
Francisco Ventém...
Era todo o mundo, não era ninguém!
Vão atrás da procissão
Com a sua devoção
Vão atrás da banda
Este povo... muito anda!
Iam de branco e de rôxo...
A Mari de Garrôcho e a Mari de Coxo
A Suja, Chula e o Carocho,
Carralhóta e Zé Mocho
Gaiana, Rabana e Cartaxo
O Baléca Surdo, o Mudo, o Laráche...
Vão todos p‘Ia rua abaixo
E a banda toca...
Lá vão até à estação...
O Bexiga, o Bigága, a Penóca
A Falóca, o Minhoca, o Ti Calhófa
A Pardóca e a Cachenóca
O Barruáte, a Laúpa e a Cagôlha
Bitroites, Chaparras, Rapôlha
Lá vai o Baleca Búzio a tocar...
O Ananito do Carvão, o Brandão
O Cabelão, o Patrão, o Penguelão
O Froita, a Anica-do-Pedão
O Arrabola, o Pá Toino e Bate-Latas
Vinha o Pai de Céu de Lata
E ninguém armava zaragatas
Acha-Latas, Patarátas
Patinhas d’Ourice e Meia Lata
Há festa na povoação!
À noite, no arraial...
Um magnífico festival
Uma autêntica maravilha!
Os fogos chegavam à Ilha!
Vinha a Faísca, o Zé Viola, a Má-CorriIha
Na festa, tudo brilha!
O Camianito, o Caguita
A Caternita, a Tacanita
A Martenhita e a Bairita
A Pérrita e a Carma-a-Bonita
Bichita, a Pula-Pitas, a Chalanita
Sardenita, Gurrita e Manita
Pázinha e Mucharrinha
Bajinha, Lindos e Lendinha
Xópinha e Cavalinha
Caldeirinha e Perna de Galinha
Gravatinha e Andorinha
Arreguinha e Sementinha
Chombadinhas e Lagoinhas
Pistolinha, Chaparrinha, Chaguinhas
Casadinha e Tagarrinha
Bentinha e Lárencinha
Cantarinha a Bailinha
Rólinha, Xótinha, a Barbinha
Cutinha, Beicinha e Pastinha
A mais moderna, a Boguinha
Todos batem palmas... na multidão
O Tatuce e o João Valjão
O Come-Figos e o Mariolão
O Fé-da-Burra, o Mama-na-Burra
O Zé Biga, João de Passos e Caturra
E o povo empurra...
Pela manhã mais calma,
Iam todos à missa...
O Chagas, o Corpo-sem-Alma,
Robalo e Badálo, o Aja-a-Deus
A Boa Morte e o Salvé Rainha
O Ti Linguiça e o Ti Merriça
O Coelhinho, o Pica-Chouriça
E todos cantavam a ladaínha
Relógio-sem-Corda, A Carochinha
Horas e Minutos... Segundos, Laborda
Pavincas, Zé da Água e Borjão
Reis, Nobres e Sacristão
Seguiam seu destino... Tocava o sino!
Jesus e Jesuíno. Na igreja o hino!
Passava a procissão! A Ti Aleluia...
Passava o Cristo, a Crista e o Pá-Pai
E o cortejo lá vai...
Ramos, Revez, o Pardela
A Menina Amália, levava uma vela!...
E o Menino Bento...
Seguia atrás do Santíssimo Sacramento!
Atrás do santo, o «Esprite Santo»!
Em dias de sol, vão ao futebol
Um extenso rol!
Tacanita e Xaruta... o Pé-de-Chaputa
Vão todos à luta...
O Cara Dura Pobre, não terá um cobre?
O Cara Dura Rico, terá que lhe sobre?
Mas para a bola, há sempre uma finta,
Oue nos dirá o amigo «Trinta»?
Lá vai o Chico da Maria da Pinta...
O Bolaroito, vai de charuto
O Picoito e o Bruto?
O Quico e o Grão de Bico
O Ti Burrico, o Eurico
Tá-Rouca, Tá-pôda e Tárrida
O Rocha grita: — «Bela Partida»!
O Beiço diz: «Golo maravilhoso»!
0 Galéciano exclama. «Ó Fráquecioso!»
É o Nuno, o Tópeiro, o Salapica
Aurétio, Agostinho e Chico Bólica
O Poeira, o Parra, o Décio, a Russa
Acaba a bola e não há «escaramuça»
Saíam com genica...
O Pinguna, o Canhóla, o Tica
O Zé Palola, o Boca de Balóla
O Bireca, o Chola, o Manel Pistola
O Caça-Gatos ouviu os relatos!
E lá ia o povo inteiro
Da minha santa terrinha...
E tanta graça que tinha!
Tocava a corneta...
Vinha o povo todo!...
Cartas bonitas eram um engôdo
Era o Piloto, depois o Custoidim
Mais tarde... O Manelzim!...
Saía o Ramechido, com cartas p‘ra dar...
Itinerário sabido? Alcunhas a comandar?
Às vezes, havia guerra...
Porque vinha a «Velha Serra»
Com telegrama de largada...
Saía a Mariana de Léguas
Não havia mar sem tréguas!
A Carminha do Poço
A Faneca, a Casbeca, a Bota
A Ti Luiça, a Benga, a Sota
Um grande alvoroço!
A Xóta e o Gaivota
O João Gordo e o Monte Gordo
O Flora, o Canário, o Tordo
E o barulho chegava à lota!
Iam p‘rá bicha do pão...
Saía o Papo-Seco e o Pão de Rolão
O Pão nunca tinha o peso
Elas queriam o «contra-peso»
Havia enorme alarido!
O Polícia andava perdido
Não podia ninguém «murtar»
O Cabo d'Ordem a mandar
Porque o «Espreitão da Gurita»
Era lá p’rá baixa-mar...
Lá vinha o Quim Parvo, a espeitar!
E corria a avisar...
Havia «garreia» no pão...
«Que não há mar sem cachão!»
Na Rua Magalhães Lima,
Aparecia o Ti Zé Lima,
O Ti Cristóve e o Ti Romão!
O Toi Rico, o Ti Bailão!
Zé de Munhe e o Brunhe
Albernuice e Calca-Porras
Cheira-Bufas e não corras
Fugia a Janica Piorra...
Cavala e Pastagala
A Rulôa e a Carma Espanhola
A Olívia Estóla, perdia a fala
O Perna, o Zé Prenda e o Gaspar da Venda
Tanta encomenda!
O Cabeça, o Emorges e a Grila
O Cebola, o Gato Preto e o Rila
O Rolanito, o Pitrólito e o Pitelorito
O Balé das Vinhas e a Martesinhas
A Bigoda e o Formiga
Calca-Porras, Arvela e Biga
Baléla, Zé da Léla
Breba, Mari Bexiga e Caravela
Sabú, Barata e Guena
Gorgulho e Gaspar Canena
E o Touro saltava à arena!
Lá no cinema... belos filmes vi...
No Barracão do Mariani.
Filmes coloridos e de espadachim
Nem faltava lá o «Ró Flim»
No outro tempo... a fita era assim!
Grande multidão aos empurrões,
Duas e três e quatro sessões...
Saíam do cinema... as constipações
As correntes de ar, do pano a abanar
E na multidão faziam Atchim!
Os moços corriam em trenesim...
Era a Milú sempre a gritar...
A Cantiga da Rua… um nunca acabar!
E o povo «estrabucha»...
Era a saída... Lá vinha toda a rapaziada
A Carminha Xuxa e a Corrucha
A Passinhas, o Gravatinha
A Lirúa, a Ti Clementina, o Ti Roque
O Patarrusca, o Mérusca e o Blóque
O Boca de Albricóque
O Francisquinho Bébé e o Xené
A Volta ao Mundo e o João Carteiro
O Rambóia, a Jóia, o Antoine Americano
O Teófile Sapateiro,
O Chico Padeiro,
O Sete Casacas e o Chico Barbeiro,
Um mundo inteiro!
Veio o cinema novo... Cópia Nova, todo o ano
O Ti Zé Aleixo, o Topa — o grande patrono.
Quando chegava um novo dia
Lá ia tudo em romaria...
Vão todos para a Armona
Lá vai a Ana-a-QueIhona
O Baló, o Manel da Avó
O Sargo, o Pisca-o-Olho
O Zé da Vaia e o Rapôlho
O Cagôlho e o Pisca-Pisca
E todos levam boa isca
Olhos de Cherne e Ti Marujinho
Baixinho, Gasparinho
Passos, Pessoa, Fófinho
Parracho e Encarnadinho
Pisco, Torradinho e Branquinho
O Marreco e o Ti Lopinhos
O Zica, Zéca, Zóca e Zuca
E vai tudo em catadupa...
O Zé Tropa e o Menino,
O Barril e o Solarino, Ti Zé Fermino
Todos sabiam o seu destino...
Não se formava bicha...
A Morgada e a Lixa
Estavam a observar...
P'rós lados do mar...
O barco apita...
O Zé Pitau e o Zé Pita
O Ilhéu e o Zé Maduro
O barco teve um «furo»?
O Manageira e o Barreto
O Toalha e o Zé do Dente
É um mar de tanta gente!
Os Fortunatos no seu domínio
Foi-se o Licínio, o barco trabalha
Levam quem calha… a Gálha-Gálha
São marés cheias... barco não encalha
Lá vão meninas de chapéu de palha...
Se dão em seco, todo o mundo ralha!
Lá vai o Avô, o Pai e a Filha
O Arte-Nova, o Janico da Ilha
O Bom, o Toi Bonito, o Ti Ervilha
O Caga-dem-Pé e o Salsa Parrilha
O Manel Baía e o Verilha
O Maneta e o Botequilha
O Metade Meio Quilo e a Bichita
A Milha leva uma bilha
De sede está aflita
Vai a Mari Caneca...
E a Maria Careca,
A Maria Estêva, um grande rol
O Brenhol e o Carcanhol!
O Marreta e o Cigarro sem Letras
O Tavira, Vila Real e Galera
E ninguém espera?
Vem a embarcação...
O Cabo da Roca, armado em «mandão»,
Vinha da baixa-mar...
Viu o Zé Augusto... que susto!
Que se estava a lavar
E num virote, foge do lugar!
Como um cavalete,
Em buraco escondido...
Um grande apito, chega-lhe ao ouvido.
— Será a Lota ou embarcação?
Ao longe, o Rascáço andava ao «bregão»
E o barco a apitar...
— Era o Beleguito...
— Ou era o Bairito? ou o Bailhanito?
Que estava a chegar?
Chegam à lota...
Vem o Carradas...
O Pescada Marmota...
E o Peixe às abádas,
Besugo, Xarrôco
Há pescadas e chôcos
Mestre Penca, Toi Ruço, Faleiro
Quando a pesca vinga,
...Chega o Baléca Petinga
«O Campião de Marrocos»
Há espécies variadas,
E começa a contagem...
Vem a marinhagem...
O Peirinha da Beirinha,
O Bacalhau e Tamanquinha,
O Olhudo e o Peixe-Rei,
O barulho chega à Cidade-sem-Lei!
Vem o Cabo sem Barbas e o Zé Olhinho
O Pica Negra, Capa Porcos e Carulho
Zé da Cega e Zé da Ponte... É grande o barulho!
E chegava por fim, a Isabel do Monte
E o sol pôs-se no horizonte!...
E vinha o Navega, o Candeias, o Raféga
Pedo Rouco, Palermo, Xona-a-Borrega
O Pouque-Ajeite e o Manel Paquete
Paixão, Rolão, tanta embarcação!
O «Pobrezinho do Bico», pede peixe e pão
Fico a recordar... Tempos que lá vão!...
Figuras típicas da minha terra
Que evoco na minha saudade...
Ti Jaquim Surdim, o Pai Andrade
Os alfaiates: Zé Juile, Dias, Guerra.
O Ti Elias, o Ti Campina, o Ferrador...
E os heróis deste povo navegador!
Tanto barco à vela! «Aurora» do João Lirão
Senhora do Carmo! São Sebastião!
O Invejoso, Boa-Sorte e Adeus!
Flor do Oceano, Vai com Deus...
A Primavera, primeira a motor
Do Gaspar Luís, mestre de valor
A Nazaré, do Manel Tavares...
Caíques e lanchas dos nossos mares!
A Estrela do Sul do Zé Canas
Seguiam até costas africanas...
Maria Francisca, Dina, Maria José
— As preferidas pelo Mestre Zé
Santo Antoninho e Marquês Pombal
Vinham da Beirinha e do Charnal!
Já nem as vejo no Areal!...
Vinha o Zeca Vendaval!...
E tudo aterra!...
Quem vai à guerra? Dá e leva!
E não sei se deva...
Que ninguém se atreva...
Porque no meu povoado
Tudo é baptizado!
Sobre a obra e a sua autora
O texto acima corresponde a um extrato de Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente, de Maria José Fraqueza, publicado em setembro de 1990.
A obra constitui um testemunho literário de uma época e de uma comunidade, reunindo em verso numerosas alcunhas, nomes populares, personagens, lugares, atividades e situações associadas à vida da Fuzeta.
O valor deste testemunho ultrapassa, por isso, a dimensão literária. Nele se encontram elementos da memória social, da linguagem popular, das relações de vizinhança, das profissões, das tradições, das festas, da religiosidade, do futebol, do cinema, da pesca e da relação da comunidade com o mar.
A sucessão de nomes e alcunhas dá corpo a uma verdadeira memória coletiva da Fuzeta, permitindo reconhecer, através da linguagem da autora, pessoas e ambientes que marcaram diferentes gerações da comunidade.
Nota sobre a transcrição
O presente texto é disponibilizado pela Junta de Freguesia da Fuzeta com finalidade de divulgação e valorização da memória histórica e cultural da comunidade.
No extrato apresentado foram preservadas, tanto quanto possível, as formas linguísticas, expressões populares, alcunhas, grafias e particularidades do texto fornecido, não sendo intenção desta publicação proceder à sua atualização ou normalização linguística.
As formas de expressão utilizadas pela autora devem, assim, ser entendidas no contexto histórico, social, cultural e linguístico em que a obra foi escrita.
Fonte
Maria José Fraqueza,
Alcunhas e Apelidos – Histórias da minha gente (páginas 46 a 57),
setembro de 1990.
Autoria
Maria José Fraqueza
Divulgação institucional
Junta de Freguesia da Fuzeta
Documento disponibilizado no âmbito da valorização, preservação e divulgação do património histórico, cultural e imaterial da Freguesia da Fuzeta.
Uma memória que permanece
As pessoas passam.
Os lugares transformam-se.
Os modos de vida mudam.
Mas, por vezes, ficam as palavras.
Ficam os nomes pelos quais alguém era conhecido, uma expressão que todos reconheciam, uma profissão, uma história, uma família ou uma recordação.
É também através dessas palavras que uma comunidade consegue reconhecer-se.
Preservar as alcunhas e as histórias da Fuzeta é, por isso, preservar uma parte da memória das suas gentes.
