Um lugar onde a água guarda a memória da Fuzeta
Há lugares que fazem parte de uma terra não apenas pela sua presença física, mas pelas histórias que neles permanecem.
Na Fuzeta, os Olheiros são um desses lugares.

A norte da vila, entre salinas, sapais, caminhos rurais e a paisagem da Ria Formosa, encontram-se estas nascentes naturais de água doce, conhecidas, desde há muitas gerações, como «olheiros» ou «olhos-d’água». São pontos onde a água subterrânea aflora à superfície, criando pequenos espaços húmidos num território profundamente marcado pela presença do mar e pela influência das marés.
Mas os Olheiros são muito mais do que uma particularidade natural da paisagem.
São um lugar de memória.
A água que fazia parte da vida
Durante muito tempo, quando a água canalizada ainda não fazia parte do quotidiano da população, os Olheiros tiveram uma importância prática na vida da comunidade.
A sua água era utilizada pela população e, de forma particularmente significativa, pelas mulheres da Fuzeta, que ali lavavam a roupa. Muitas dessas mulheres trabalhavam na indústria conserveira de Olhão e deslocavam-se diariamente entre a Fuzeta e os locais de trabalho. Os Olheiros faziam, assim, parte dos percursos, das tarefas e da vida quotidiana de numerosas famílias.
A memória desses tempos permanece nas recordações transmitidas de geração em geração.
Nos Olheiros não se encontra apenas a história da água: encontra-se também a história das pessoas que dela dependiam.
É por isso que este lugar pode ser entendido como um verdadeiro património social da Fuzeta, ligado à vida doméstica, ao trabalho, à condição das mulheres e à organização quotidiana de uma pequena comunidade piscatória.
Entre a terra e a água
A existência de nascentes de água doce num território submetido à influência das águas salgadas da Ria Formosa conferiu aos Olheiros uma importância particular na paisagem.
As suas águas relacionavam-se com os sapais e com as zonas húmidas envolventes, contribuindo para a criação de ambientes naturais específicos, onde se encontravam espécies de fauna e flora adaptadas a esta transição entre a água doce, a água salobra e a água salgada.
Ainda hoje, a área dos Olheiros integra uma paisagem de elevado interesse natural, próxima das salinas e dos espaços húmidos da Ria Formosa, onde é possível observar uma diversidade de aves e outros elementos característicos deste território.
A natureza e a atividade humana foram, aqui, inseparáveis durante séculos.
O Sítio dos Moinhos e o Moinho dos Olheiros
A proximidade dos Olheiros ajuda também a compreender a antiga paisagem económica da Fuzeta.
Esta área era conhecida como Sítio dos Moinhos, onde existiram estruturas relacionadas com a exploração da força das marés. Entre elas encontrava-se o Moinho dos Olheiros, assim denominado pela proximidade das nascentes.
O moinho constitui um testemunho de uma época em que as marés, as águas, as salinas e o trabalho humano formavam um sistema económico intimamente ligado à paisagem.
Em 1920, o moinho foi adquirido por um fuzetense. Nessa altura, é provável que já não desempenhasse a função para a qual fora originalmente construído. Posteriormente, foi utilizado como habitação por trabalhadores das salinas e da fábrica de sal, tendo várias famílias vivido no edifício até cerca de meados da década de 1990.

O abandono conduziu-o a um estado de acentuada degradação. Parte da cobertura cedeu, a açoteia ruiu e a varanda ficou em ruínas.
A partir de 2006, a família do antigo proprietário promoveu a recuperação do edifício, procurando preservar a sua configuração original e recorrendo a técnicas tradicionais. A intervenção permitiu conservar alguns elementos pertencentes ao antigo moinho e recuperar um testemunho importante da história da paisagem produtiva da Fuzeta.
A recuperação do Moinho dos Olheiros demonstra, também, como a iniciativa particular pode desempenhar um papel relevante na salvaguarda do património local.
Uma memória de resistência
Os Olheiros estão ainda associados a uma das memórias de resistência mais interessantes transmitidas pela comunidade.
A construção da linha de caminho de ferro provocou profundas transformações na paisagem da Fuzeta. Segundo a tradição oral local, os trabalhos ferroviários ameaçavam afetar os Olheiros e os espaços de que a população se servia.

A comunidade terá reagido de forma persistente. Conta a memória local que, durante a noite, alguns habitantes desmontavam aquilo que os trabalhadores dos caminhos de ferro haviam construído durante o dia, numa espécie de confronto silencioso que acabaria por contribuir para a alteração do traçado previsto.
Esta narrativa deverá ser entendida enquanto memória oral da comunidade, carecendo a sua formulação histórica definitiva de confronto com documentação sobre a construção da linha ferroviária.

Ainda assim, o seu significado cultural é inegável.
A história recordada pelos habitantes revela a importância que os Olheiros tinham adquirido na vida da comunidade e exprime uma característica profundamente enraizada na identidade da Fuzeta: a capacidade de uma pequena população defender os lugares que considera seus.
Os Olheiros e a memória da Fuzeta
A importância dos Olheiros não resulta de um único acontecimento.
Resulta da acumulação de muitas pequenas histórias.
Das mulheres que ali lavavam a roupa.

Das famílias que dependiam daquela água.
Dos trabalhadores das salinas.
Dos habitantes que percorriam os caminhos entre a vila e os campos.
Dos simples passeios domingueiros de amigos ou de namorados.

Do moinho que marcou a paisagem.
Da relação entre as nascentes, as salinas e as águas da ria.
Das histórias contadas pelos mais velhos.
E também das crianças que cresceram conhecendo aquele lugar simplesmente como os Olheiros.
É precisamente esta dimensão quotidiana que torna o lugar tão importante.
O património de uma comunidade não se encontra apenas nos edifícios monumentais ou nos acontecimentos inscritos nos livros de História. Encontra-se também nos lugares aparentemente modestos onde, durante décadas ou séculos, as pessoas viveram, trabalharam, conversaram, brincaram e construíram as suas memórias.
Uma paisagem também feita de histórias
Os Olheiros fazem ainda parte do património imaterial da Fuzeta.
À sua existência está associada a Lenda dos Olhos de Água ou Lenda dos Olheiros, narrativa tradicional que evoca uma moura encantada.
Como todas as lendas, deve ser distinguida da história documentada. Mas isso não diminui o seu valor.
As lendas explicam também a forma como as comunidades olham para a sua paisagem. Transformam nascentes, pedras, árvores, rios ou montes em lugares dotados de significado e ajudam a transmitir às gerações seguintes uma relação afetiva com o território.
Nos Olheiros, a água natural, a memória das pessoas e a tradição oral encontram-se, assim, num mesmo lugar.
Um património que merece ser redescoberto
Durante muitos anos, os Olheiros foram um espaço de utilização quotidiana. Hoje, a sua importância é sobretudo patrimonial, ambiental e cultural.
A progressiva degradação do lugar constitui, por isso, uma perda que ultrapassa a dimensão meramente física.
Quando um espaço como os Olheiros se degrada, perde-se também parte da possibilidade de transmitir às gerações futuras as histórias que lhe estão associadas.
A sua recuperação deverá, por isso, ser pensada não apenas como uma intervenção de limpeza ou valorização paisagística, mas como um verdadeiro projeto de salvaguarda da memória local.
Uma intervenção adequada poderia contemplar a recuperação ambiental das nascentes, a limpeza e qualificação do espaço envolvente, a criação de zonas de permanência compatíveis com a sensibilidade do local, a colocação de informação interpretativa e a valorização dos caminhos que ligam os Olheiros às salinas, ao Sítio dos Moinhos e à Ria Formosa.
Poderia ainda ser estudada a criação de um percurso pedestre e ciclável de interpretação da paisagem, permitindo compreender, no próprio território, a relação entre a água doce dos Olheiros, a água salgada da ria, as salinas, os antigos moinhos e a vila da Fuzeta.
Um percurso pela memória
Um percurso pelos Olheiros poderia começar na vila e conduzir o visitante progressivamente para uma paisagem diferente daquela que normalmente associa à Fuzeta.
À medida que se deixa para trás o núcleo urbano, o visitante encontra os caminhos rurais, as salinas e os espaços húmidos, bem como a memória do Sítio dos Moinhos e do antigo Moinho dos Olheiros.
Mais adiante, surgem os Olheiros, na proximidade da estação do caminho de ferro.
Ali, a água doce aflora discretamente à superfície.
A paisagem permite então compreender como a Fuzeta se desenvolveu numa estreita relação com a água: a água doce das nascentes, a água salgada da ria, a água das marés que movia os moinhos e a água do mar que sustentava a atividade piscatória.
Este percurso poderia constituir uma pequena viagem pela história da Fuzeta, ligando natureza, trabalho, património e memória.
Os Olheiros no património da Fuzeta
Os Olheiros devem, por isso, ser reconhecidos como parte integrante do património da Fuzeta.
Não são apenas nascentes naturais.
São testemunho da relação secular entre a população e o território.
São memória do quotidiano de gerações de fuzetenses.
São parte da história das mulheres que ali lavavam a roupa.
São parte da paisagem das salinas e dos antigos moinhos.
São parte da memória da comunidade perante as transformações provocadas pela chegada do caminho de ferro.
São parte do imaginário da Fuzeta através das suas lendas.
E são, sobretudo, um lugar onde a história local ainda pode ser lida na própria paisagem.
Preservar os Olheiros é preservar uma parte da memória da Fuzeta.
Recuperá-los é devolver à comunidade um lugar que lhe pertence pela história, pela memória e pela identidade.
E dar a conhecer os Olheiros às novas gerações é garantir que a água que ali brota continue a contar, no futuro, uma parte da história desta terra entre o mar e a ria.

